A captura de carbono é crítica para atingir neutralidade climática, mas os processos industriais não operam em condições secas. Os gases de escape contêm simultaneamente CO₂ e 5 a 15% de vapor de água.
Durante anos, materiais sorventes promissores, especialmente MOFs, eram testados apenas em ambiente seco, deixando uma lacuna importante.

Aplicação em Cenário Real de Pós Combustão Industriais
A Surface Measurement Systems divulgou uma nota de aplicação (DVS Application Note 117) onde apresenta a caracterização completa de co-sorção de CO₂ e H₂O no MOF CALF-20 sob condições pós-combustão realistas, utilizando o DVS Carbon Advanced para medições gravimétricas com controle independente de concentração de CO₂ e umidade relativa, gerando dados quantitativos essenciais para engenharia de processos.
Você encontrará nesse artigo
- Por que o CALF-20 é considerado benchmark para captura de carbono em condições úmidas
- Resultados completos das isotermas de CO₂ e H₂O isoladas (5–105°C)
- Entalpia isostérica de sorção de ambos os gases e confirmação de reversibilidade
- Características hidrofóbicas do material e comportamento de condensação capilar
- A paisagem completa de co-sorção com superfícies 3D de uptake total, obtida com controle independente de CO₂ e umidade do DVS Carbon Advanced
- Implicações práticas para modelagem, otimização de ciclos e dimensionamento industrial

O Problema Real: Captura de Carbono em Presença de Umidade
A captura de carbono em ponto de origem (flue gas pós-combustão) e captura direta do ar (DAC) enfrentam o mesmo desafio: umidade.
Gases industriais e ar ambiente apresentam até 98% RH. A maioria dos MOFs tradicionais perde capacidade ou estabilidade quando exposta a vapor de água.
Estudos convencionais: medem isotermas isoladas de CO₂ ou H₂O, mas raramente avaliam a competição real entre ambos nos mesmos poros.
CALF-20: Um MOF Levemente Hidrofóbico como Benchmark
Em 2021, pesquisadores da Universidade de Calgary apresentaram o CALF-20 (Calgary Framework 20): um framework de zinco-triazol-oxalato com combinação rara de propriedades.
Ele oferece alta capacidade de CO₂ por fisisorção (entalpia moderada de 30–35 kJ/mol), boa seletividade sobre N₂ e estabilidade química extrema, inclusive sob regeneração a vapor.
Propriedades Chave do CALF-20
- Capacidade de CO₂ > 3 mmol/g a 25°C em 15–50% CO₂
- Estrutura totalmente coordenada (sem sítios metálicos abertos)
- Reversibilidade em centenas de milhares de ciclos
- Estabilidade térmica até 450°C
Desafio anterior: faltavam dados quantitativos sobre o comportamento real quando CO₂ e H₂O competem simultaneamente.
Metodologia: Medições Gravimétricas Sistemáticas com DVS Carbon Advanced

O equipamento da Surface Measurement Systems permite controle totalmente independente de concentração de CO₂ e umidade relativa em uma ampla faixa de temperatura. Essa capacidade única possibilita explorar de forma sistemática o espaço paramétrico completo relevante para condições reais de captura de carbono.
Gera medições gravimétricas precisas e multidimensionais que revelam interações competitivas entre CO₂ e H₂O.
O DVS Carbon permite:
- Controlar CO₂ de ppm até 100 vol% de forma independente
- Ajustar umidade relativa de 0 a 98% RH sem interferência no CO₂
- Manter temperatura estável ou variada entre 5 °C e 450 °C
- Realizar perfis stepwise ou rampados de concentração e umidade
- Registrar mudanças de massa com resolução sub-micrograma
- Aplicar critério automático de equilíbrio (ex.: <0,002%/min por 10 min)
- Gerar isotermas únicas, isobaras, isohumes e experimentos de co-sorção
- Construir superfícies 3D completas de uptake total (CO₂ + H₂O)
Preparação das Amostras
Amostras de CALF-20 (10–50 mg) foram ativadas a 180°C por no mínimo 180 minutos sob purga de gás seco. Essa massa garante bom sinal, cinética rápida e ausência de gradientes térmicos.
Protocolos Experimentais
Mediram-se isotermas de 5 a 105°C com critério de equilíbrio < 0,002%/min por 10 minutos. Também foram registradas isobaras, isohumes e ramos de dessorção.

Resultados: Sorção Isolada de CO₂ no CALF-20
As isotermas de CO₂ apresentam comportamento Tipo I (preenchimento de microporos). A 25°C, em faixas industriais (15–50% CO₂), o uptake supera 3 mmol/g.
Com o aumento da temperatura, a capacidade cai significativamente, comportamento típico de fisisorção exotérmica.



A histerese mínima confirma reversibilidade total, essencial para ciclos industriais longos.
Resultados: Sorção Isolada de H₂O no CALF-20
As isotermas de água revelam o caráter parcialmente hidrofóbico do CALF-20.

Abaixo de 10% RH o uptake permanece mínimo em toda a faixa de temperatura. A entalpia inicial de sorção de água fica abaixo de 44 kJ/mol.


Resultados: Co-sorção CO₂ e H₂O — A Paisagem Completa
Realizaram-se experimentos com fundo fixo de um componente e varredura do outro, cobrindo todo o espaço paramétrico.
Fundo fixo de CO₂ + varredura de RH

A Paisagem 3D de Co-sorção


Insight principal: a superfície revela as regiões de competição entre CO₂ e H₂O, fornecendo dados quantitativos diretos para modelagem e otimização de processos.
Implicações para o Desenvolvimento de Processos de Captura de Carbono
Os resultados permitem projetar ciclos de adsorção e regeneração com dados reais de temperatura, CO₂ e umidade. As superfícies 3D servem como input direto para simuladores industriais.
Aplicabilidade da Metodologia
A abordagem gravimétrica sistemática se aplica igualmente a outros materiais sorventes: MOFs funcionalizados, zeólitas, carbons porosos e sorventes amina-graft.
Conclusão
Este estudo mapeou de forma quantitativa e sistemática o comportamento de co-sorção de CO₂ e H₂O no MOF CALF-20 sob condições reais de pós-combustão. Utilizando o DVS Carbon Advanced, foram obtidos dados precisos, incluindo isotermas, entalpias isostéricas e superfícies 3D, que fornecem base sólida para a engenharia de processos de captura de carbono eficientes e escaláveis.
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FAQ: Captura de Carbono e Co-sorção no MOF CALF-20
1. Por que a umidade é um desafio tão grande na captura de carbono?
A maioria dos processos industriais (como pós-combustão em termelétricas e refinarias) libera gases com 5–15% de vapor de água simultaneamente ao CO₂. MOFs tradicionais perdem capacidade ou estabilidade quando expostos a umidade real (até 98% RH), pois a água compete pelos mesmos poros, o que não é capturado em testes secos convencionais.
2. O que torna o CALF-20 um material benchmark para captura de carbono em condições úmidas?
O CALF-20 é um framework de zinco-triazol-oxalato com hidrofobicidade moderada, estrutura totalmente coordenada (sem sítios metálicos abertos), capacidade de CO₂ > 3 mmol/g a 25°C em 15–50% CO₂, entalpia moderada (30–35 kJ/mol) e estabilidade extrema (regeneração a vapor e até 450°C), permitindo operação realista em gases úmidos sem degradação significativa.
3. Como o DVS Carbon Advanced permite medir co-sorção de forma realista?
Ele controla independentemente CO₂ (ppm a 100 vol%) e umidade relativa (0–98% RH) em temperaturas de 5–450°C, com resolução sub-micrograma e critérios de equilíbrio rigorosos (<0,002%/min por 10 min). Isso gera isotermas únicas, isobaras, isohumes e experimentos de co-sorção, possibilitando superfícies 3D completas de uptake total.
4. Quais são os principais resultados das medições isoladas de CO₂ e H₂O no CALF-20?
As isotermas de CO₂ mostram comportamento Tipo I, com uptake >3 mmol/g em faixas industriais e reversibilidade confirmada por histerese mínima. As de H₂O revelam caráter parcialmente hidrofóbico: uptake mínimo <10% RH e condensação capilar >20% RH, com entalpia inicial <44 kJ/mol, indicando interações fracas com o framework.
5. O que revelam as superfícies 3D de co-sorção e por que elas são importantes?
As superfícies 3D (obtidas com fundo fixo de um componente e varredura do outro) mostram a paisagem competitiva entre CO₂ e H₂O em todo o espaço paramétrico. Elas identificam regiões de competição e interação, fornecendo dados quantitativos diretos para modelagem, otimização de ciclos de adsorção-regeneração e dimensionamento industrial.
6. Essa metodologia pode ser aplicada a outros materiais além do CALF-20?
Sim, a abordagem gravimétrica sistemática do DVS Carbon Advanced é genérica e se aplica a MOFs funcionalizados, zeólitas (ex.: 13X), carbons porosos, sorventes amina-graft e outros materiais para captura de carbono. Ela permite caracterização realista em condições multicomponentes (CO₂ + H₂O + temperatura), essencial para pesquisa e escala industrial.
Referências
- United Nations (2015). The Paris Agreement. https://www.un.org/en/climatechange/paris-agreement
- Carrascal-Hernández et al. (2025). Molecules, 30(3), 563. https://doi.org/10.3390/molecules30030563
- Bolisetty et al. (2021). Science, 374(6574), 1464–1469. https://doi.org/10.1126/science.abi7281
- Steenhaut et al. (2024). Inorg. Chem., 64(6), 2594–2604. https://doi.org/10.1021/acs.inorgchem.4c04727
- Sharma et al. (2024). Nat. Commun., 15, 3981. https://doi.org/10.1038/s41467-024-48136-0
- Lin et al. (2023). ACS Mater. Lett., 5(11), 3173–3180. https://doi.org/10.1021/acsmaterialslett.3c00930