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Vacina de mRNA personalizada contra câncer: por que a integridade da amostra é decisiva?

Vacina de mRNA personalizada contra câncer: entenda por que a integridade da amostra do paciente é decisiva em uma terapia que não admite segundo lote.

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Por: Dafratec | Em 08/09/2026 | Artigo
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Terapia fabricada a partir do tumor de cada paciente depende de coleta, criopreservação e rastreabilidade

A integridade da amostra é decisiva porque a vacina de mRNA personalizada contra câncer é fabricada a partir do tumor de um único paciente, obtido em um procedimento que não será repetido. 

Não existe segundo lote: se o material degrada, se perde ou tem sua identidade comprometida, a terapia daquela pessoa deixa de ser possível. 


Terapia fabricada a partir do tumor de cada paciente

Armazenamento inteligente passou a ser fundamental

Essa condição transfere para a etapa de armazenamento uma responsabilidade que antes era apenas logística. Manuseio automatizado que evita retirar a amostra da faixa de temperatura, verificação de identidade a cada movimentação e registro de cada operação deixam de ser refinamento operacional e passam a ser condição para que a terapia exista.

É uma inversão em relação à produção farmacêutica convencional, na qual um lote reprovado é simplesmente descartado e refeito. Aqui, o insumo de partida é insubstituível.

O National Cancer Institute classifica a abordagem como imunoterapia, que usa o próprio sistema imune contra o câncer. O tema ganhou força em agosto de 2026, quando Merck e Moderna anunciaram resultados positivos de Fase 3: o intismeran autogene com pembrolizumabe, em melanoma ressecado, reduziu recorrências e metástases à distância.

É o primeiro resultado positivo de Fase 3 para uma terapia oncológica de mRNA individualizada.

Este conteúdo aborda:

  • O que é um neoantígeno e por que ele torna cada dose única
  • As quatro etapas de produção de uma vacina de mRNA personalizada contra câncer
  • O que os dados clínicos mostram hoje e o que ainda não foi divulgado
  • O que o Brasil constrói em plataforma de mRNA e onde estão os limites
  • A etapa da cadeia que já é executada em solo brasileiro
  • Como a automação de armazenamento sustenta a integridade e a rastreabilidade das amostras
  • O caso do CAR-T nacional como paralelo direto
Nota sobre o conteúdo: a Dafratec não produz, comercializa nem participa do desenvolvimento de vacinas ou de qualquer terapia. Este texto tem caráter informativo e divulga estudos e notícias públicas do setor. Nossa atuação é o fornecimento de equipamentos para laboratórios e a difusão de conhecimento e informação em life science.

O que é um neoantígeno e por que a vacina de mRNA personalizada contra câncer não pode ser produzida em lote

Células tumorais acumulam mutações no DNA. Parte dessas mutações gera proteínas alteradas que não existem em nenhuma célula saudável do organismo. Essas proteínas mutadas são chamadas de neoantígenos.


vacina de mRNA personalizada contra câncer não pode ser produzida em lote

O neoantígeno é, na prática, uma assinatura molecular do tumor daquele paciente específico. Dois pacientes com o mesmo diagnóstico histológico podem ter conjuntos de neoantígenos quase sem sobreposição. 

É essa singularidade que sustenta toda a lógica da terapia e também toda a sua complexidade logística.

Terapia individualizada de neoantígeno: a nomenclatura técnica correta

O termo "vacina" é o que circula na imprensa, mas a designação técnica adotada pelos desenvolvedores é terapia individualizada de neoantígeno (INT, na sigla em inglês). A diferença não é semântica. Uma vacina convencional é profilática e padronizada; a INT é terapêutica, aplicada em quem já teve a doença, e fabricada sob medida.

Segundo o The ASCO Post, cada terapia consiste em um mRNA sintético que codifica até 34 neoantígenos, ajustado à biologia única do tumor de cada paciente.

O que a singularidade do neoantígeno impõe à logística

Como o alvo terapêutico é definido pelo perfil mutacional individual, o produto final não pode ser antecipado, estocado nem transferido entre pacientes. A fabricação só começa depois que o tumor daquela pessoa foi coletado e lido.

Isso reposiciona o laboratório e o biobanco: eles deixam de ser suporte à pesquisa e passam a integrar a cadeia terapêutica. A qualidade do que sai do centro de coleta determina o que é possível fabricar do outro lado.

Como é produzida uma vacina de mRNA personalizada contra câncer: as quatro etapas

Como é produzida uma vacina de mRNA personalizada contra câncer: as quatro etapas

O fluxo é o mesmo em todos os programas clínicos em curso. São quatro etapas encadeadas, e cada uma depende da qualidade da anterior.

Etapa 1: coleta pareada de amostra tumoral e amostra normal

São coletadas duas amostras do mesmo paciente: o tecido tumoral, obtido na ressecção, e uma amostra normal, geralmente sangue. O pareamento permite distinguir a mutação tumoral da variante germinativa que a pessoa carrega desde o nascimento.

O dano pré-analítico começa no instante da ressecção. O tempo até a estabilização em temperatura controlada define o teto de qualidade de tudo o que vem depois, nenhuma etapa posterior recupera informação perdida nessa janela.

Etapa 2: sequenciamento e variant calling

As duas amostras são sequenciadas e comparadas. O variant calling identifica as mutações somáticas exclusivas do tumor.

Ácidos nucleicos degradados geram dados fragmentados, cobertura irregular e variantes perdidas. A integridade da Etapa 1 determina o que é possível enxergar aqui.

Etapa 3: seleção de epítopos e fabricação GMP do mRNA

Algoritmos avaliam quais neoantígenos têm maior chance de serem apresentados pelo sistema imune do paciente e provocar resposta de células T. As sequências selecionadas são transcritas em mRNA sintético, produzido sob boas práticas de fabricação e formulado em nanopartículas lipídicas.

Etapa 4: administração e acompanhamento imunológico

A terapia é aplicada em múltiplas doses, combinada a um inibidor de checkpoint. No INTerpath-001, foram até nove doses de intismeran ao longo de cerca de um ano, associadas ao pembrolizumabe.

O acompanhamento não termina na aplicação: amostras seriadas continuam sendo coletadas e armazenadas para análise de correlatos imunológicos.

No papel o fluxo é linear. Na prática, atravessa instituições, países e sistemas de informação diferentes, e é nas transições que se concentram os riscos operacionais.

Para aprofundar nas etapas de produção, a revisão publicada na revista Vaccines detalha o fluxo completo de desenvolvimento de vacinas personalizadas baseadas em neoantígenos, da coleta pareada à administração clínica.

Onde está a vacina de mRNA personalizada contra câncer hoje: do KEYNOTE-942 à Fase 3

Os números divulgados até agora vêm da Fase 2b. No follow-up de cinco anos do KEYNOTE-942, apresentado no ASCO 2026, a combinação reduziu em 49% o risco de recorrência ou morte (HR=0,51; IC 95% 0,294-0,887) e em 59% o risco de metástase à distância ou morte (HR=0,411; IC 95% 0,200-0,843) frente ao pembrolizumabe isolado, segundo o comunicado da Moderna

Já a Fase 3 INTerpath-001, que randomizou 1.137 pacientes com melanoma ressecado, atingiu os desfechos em análise interina, mas seus valores quantitativos ainda não foram divulgados, serão apresentados em congresso médico internacional. Qualquer número de redução de risco atribuído hoje ao INTerpath-001 é, na verdade, dado da Fase 2b.

Expansão para outros tumores

O programa não se limita ao melanoma. Estudos em andamento avaliam a abordagem em adenocarcinoma ductal pancreático adjuvante, carcinoma gástrico perioperatório e câncer de pulmão de células não pequenas perioperatório. O pâncreas é o teste mais exigente da hipótese, por combinar baixa carga mutacional e microambiente imunossupressor.

O cenário brasileiro: o que o país constrói em plataforma de mRNA

Mapa do Brasil mostrando algumas das participações na produção de vacinas

A pergunta que naturalmente surge é se o Brasil produzirá esse tipo de terapia. A resposta exige separar duas coisas que costumam ser confundidas.

Butantan e o Centro de Produção Multipropósito de Vacinas

O Instituto Butantan firmou com o Ministério da Saúde um acordo de R$ 386 milhões, dos quais R$ 72 milhões destinados à fábrica de imunizantes de mRNA que será instalada no Centro de Produção Multipropósito de Vacinas (CPMV), e R$ 222 milhões à planta de soros liofilizados. O investimento integra a Estratégia Nacional para o Desenvolvimento do Complexo Econômico-Industrial da Saúde.

Fiocruz, Embrapii e os centros de competência

Em paralelo, o Ministério da Saúde informa ter investido R$ 210 milhões em plataformas de mRNA, reunindo três centros nacionais: Fiocruz (R$ 77 milhões), Butantan (R$ 73 milhões) e o Centro de Competência em Vacinas da UFMG (R$ 60 milhões), via Novo PAC Saúde. A Fiocruz prepara os estudos clínicos da primeira vacina de RNA mensageiro desenvolvida integralmente no país.

O CTV-RNA, da UFMG, é o ponto mais próximo da oncologia: além de vacinas contra dengue, malária, Chagas e leishmaniose, desenvolve imunoterapia contra o câncer baseada em siRNA, vacinas com antígenos tumorais e uma metodologia de CAR-T baseada em RNA.

O que essa infraestrutura cobre e o que não cobre

Trata-se de capacidade para vacinas profiláticas produzidas em lote, o modelo da vacina contra covid-19, em que milhões de doses idênticas saem da mesma linha. É estratégico e relevante, mas não é o mesmo problema industrial de fabricar uma dose única por paciente.

O Brasil não tem, hoje, planta GMP dedicada à fabricação de terapias de neoantígeno individualizadas. Reconhecer isso é o que permite enxergar corretamente onde o país efetivamente já atua.

A etapa que cabe ao Brasil: a origem da amostra

O país não fabrica a terapia. Mas centros brasileiros já executam a primeira etapa da cadeia, e isso não é projeção de futuro, é situação corrente.

Hospitais brasileiros dentro do programa INTerpath

O registro do ClinicalTrials.gov mostra sítios brasileiros ativamente recrutando em múltiplos estudos do programa. No INTerpath-009, voltado a câncer de pulmão, participam o Instituto Nacional de Câncer (INCA), o Hospital de Amor de Barretos, o Hospital Araújo Jorge, a Liga Norte Riograndense Contra o Câncer, o Hospital Moinhos de Vento e o Hospital Nossa Senhora da Conceição, entre outros.

O estudo V940-002 inclui ainda o ICESP, o Hospital Samaritano de São Paulo e a Santa Casa de Porto Alegre. Há também sítios nacionais em estudos de câncer de bexiga e de carcinoma espinocelular cutâneo.

Quando um paciente brasileiro entra em um desses protocolos, é em solo nacional que o tumor é ressecado, a amostra pareada é coletada, o material é processado e conservado até seguir para as etapas seguintes. O centro brasileiro é o ponto de origem da amostra, e o ponto onde ela pode ser perdida.

Os riscos operacionais concretos

Quatro riscos se materializam justamente nessa fase, e todos são operacionais antes de serem científicos:

  • Degradação por ciclos térmicos. Cada abertura de freezer e cada retirada manual expõe amostras vizinhas a variação de temperatura.
  • Erro de identidade. Uma troca de tubo em uma terapia individualizada não é um erro de laboratório, é um erro clínico com consequência direta sobre o paciente.
  • Tempo de recuperação. Localizar uma alíquota específica em um acervo denso, manualmente, prolonga a exposição de todo o entorno.
  • Ruptura de rastreabilidade. A amostra atravessa faixas de temperatura, formatos de recipiente e sistemas de registro diferentes; cada transição sem verificação é um ponto cego.

Esses riscos não são hipotéticos, a literatura pré-analítica os quantifica com clareza.

O que a literatura pré-analítica demonstra sobre integridade de amostras

O que a literatura pré-analítica demonstra sobre integridade de amostras

A fase pré-analítica é o conjunto de operações entre a coleta e a análise. É onde se decide, na prática, se a amostra ainda serve.

Ciclos de congelamento e descongelamento

Uma revisão sistemática publicada no PeerJ, que sintetizou 46 estudos, descreveu instabilidade dose-dependente associada a ciclos de congelamento e descongelamento: acima de dez ciclos, houve degradação severa, com cerca de 70% dos biomarcadores alterados. 

Mesmo cinco ciclos ou menos alteraram significativamente enzimas, com 43% afetadas. A mesma revisão registrou que amostras mantidas fora de refrigeração apresentaram cerca de 3,2 vezes mais alterações de biomarcadores após atrasos superiores a 24 horas.

Integridade de RNA e impacto no sequenciamento

Um estudo com células mononucleares de sangue periférico demonstrou que a ausência de reagentes estabilizadores reduziu significativamente a integridade do RNA, e a análise de RNA-Seq de 25.223 transcritos indicou viés sistemático em cerca de 40% deles. 

Em uma cadeia que depende de leitura fiel do perfil molecular, viés dessa magnitude não é detalhe.

Blocos FFPE e requisitos mínimos de qualidade

Blocos fixados em formalina e embebidos em parafina são fonte recorrente de material tumoral. Uma publicação na BMC Medical Genomics propôs recomendações de controle de qualidade para RNA-Seq a partir de FFPE, sugerindo concentração mínima na ordem de 25 ng/µl para viabilizar a análise.

A norma que formaliza tudo isso

A ISO 20387:2018 define qualidade da amostra como a qualidade necessária para o uso pretendido, e reconhece explicitamente que variáveis pré-analíticas, isquemia quente e fria, ciclos de congelamento e descongelamento, soluções estabilizadoras, afetam essa qualidade. A norma cobre coleta, preparação, preservação, armazenamento, distribuição e gestão de dados, além de manutenção, calibração e monitoramento de equipamentos.

Um ponto da ISO 20387 costuma passar despercebido e é decisivo: a norma trata da necessidade de gerenciar a contagem de ciclos de congelamento e descongelamento das amostras. Não basta evitar, é preciso contabilizar e registrar. Isso transforma a manipulação automatizada em requisito documental, não em conveniência.

A exigência regulatória brasileira

No Brasil, a Resolução CNS nº 441/2011 estabelece que o prazo de armazenamento em biobanco é indeterminado, condicionado ao atendimento das normas vigentes, e que a instituição responsável deve apresentar ao Sistema CEP/CONEP, a cada cinco anos ou quando solicitado, relatório de atividades contendo o número de sujeitos incluídos e a relação de pesquisas que utilizaram as amostras.

A resolução determina ainda que os biobancos estão sujeitos a inspeção sanitária e exige respeito à confidencialidade e à recuperação dos dados dos sujeitos de pesquisa.

Rastreabilidade, no contexto brasileiro, não é boa prática opcional: é obrigação normativa com prestação de contas periódica e sujeita a inspeção. A resolução encontra-se em processo de revisão pela CONEP.

Armazenamento automatizado: como proteger a integridade da amostra em cada etapa

Todo risco descrito até aqui acontece dentro do laboratório, no momento em que alguém precisa localizar, retirar ou transportar uma amostra, e cada uma dessas operações expõe o material a variação de temperatura. 

Some a isso o registro: mudança de formato, transferência entre ambientes e conferência de identidade dependem de quem está no plantão anotando corretamente. É aí que entra a automação, que faz a movimentação sem tirar a amostra da faixa de temperatura, identifica quem acessou o quê e gera o registro no próprio ato. 

Para se adequar a esse fluxo, algumas tecnologias que podem ser implementadas no laboratório:


Sistema Criogênico Automatizado com Picking a -150°C

Hatch Automated LN₂ Freezer

Manuseio, armazenamento e recuperação automatizados de tubos em temperatura criogênica, minimizando a exposição a ciclos de congelamento e descongelamento durante as operações.


Biobanco Automatizado -80°C Kiosk: Automação Inteligente para Gestão de Amostras

Kiosk Automated Walk-in ULT Freezer

Acesso automatizado em larga escala a -80 °C, cobrindo armazenamento, picking automatizado de tubos e racks e gestão inteligente para acervos de alta densidade.

Repositório de Amostras Automatizado - Freezer Laboratório -80°C - Snorkel

Snorkel Automated ULT Freezer

Armazenamento e gestão automatizados a -80/-20 °C para fluxos laboratoriais flexíveis, com múltiplos formatos de labware e coordenação entre vários usuários.

O denominador comum entre essas soluções é a substituição da intervenção manual por operações registradas. Cada movimento verificado é um ponto a menos de ruptura na cadeia de custódia, e um registro a mais disponível quando o relatório à CONEP for exigido.


O CAR-T nacional: o paralelo mais próximo em solo brasileiro

Se a terapia de neoantígeno ainda não é fabricada no Brasil, existe uma terapia individualizada que já é e com a mesma lógica logística.

O estudo CARTHEDRALL

O Hemocentro de Ribeirão Preto foi escolhido pela Anvisa para conduzir o projeto-piloto brasileiro de produtos de terapia avançada com células CAR-T, voltado a pacientes com leucemia e linfoma. 

A agência aprovou o relatório de segurança da primeira fase do Estudo Clínico CARTHEDRALL, desenvolvido em parceria com o Instituto Butantan, e autorizou a progressão para a segunda etapa.

O estudo, financiado pelo Ministério da Saúde por meio do PROCIS, prevê tratar 81 pessoas, com recrutamento em cinco centros habilitados: Hospital das Clínicas da FMUSP, Beneficência Portuguesa e Sírio-Libanês, em São Paulo, Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto e Hospital de Clínicas da Unicamp. A previsão de solicitação de registro junto à Anvisa foi indicada para o segundo semestre de 2026.

O dado que explica por que a logística de amostras importa

Reportagem do Correio Braziliense registra que, embora o CAR-T esteja disponível no Brasil para mieloma múltiplo, o material coletado precisa ser transportado aos Estados Unidos e devolvido para reinfusão, em um processo que ultrapassa um mês. O custo dessas abordagens é da ordem de R$ 2,5 milhões por pessoa.

Mais de trinta dias de trânsito internacional, com um material insubstituível coletado de um paciente em tratamento. Esse é o cenário concreto que já existe hoje no Brasil — e é exatamente o cenário que a terapia de neoantígeno reproduzirá quando chegar ao país.

Outras frentes em curso

O mesmo centro recebeu aporte de aproximadamente R$ 50 milhões para o desenvolvimento de terapia com células CAR-NK, via edital apoiado pelo MCTI, Finep e FNDCT. Somadas aos biobancos hospitalares, às coleções de pesquisa translacional e aos estudos multicêntricos de oncologia, essas frentes desenham uma demanda crescente e permanente por infraestrutura de amostras qualificada.

O que avaliar antes de automatizar o armazenamento de amostras

A decisão de automatizar deve partir do fluxo real do laboratório, não do equipamento. Alguns pontos orientam essa avaliação:

  • Faixas de temperatura efetivamente utilizadas: criogênica, -80 °C, -20 °C, ambiente para FFPE, ou combinação delas.
  • Frequência de acesso: acervos de consulta rara e acervos de movimentação diária impõem exigências opostas.
  • Formatos de labware: tubos, racks, placas, blocos de parafina e a necessidade de conviverem no mesmo sistema.
  • Número de usuários e perfis de acesso: coordenação entre equipes e controle de quem movimenta o quê.
  • Integração com LIMS: o registro precisa alimentar o sistema de informação, não viver isolado no equipamento.
  • Requisitos de relatório: o que a instituição precisará demonstrar ao CEP, à CONEP e em auditorias de patrocinador.

Essa avaliação define não apenas qual solução adotar, mas se a automação resolverá o gargalo real ou apenas deslocará o problema.


Perguntas frequentes sobre vacina de mRNA personalizada contra câncer

A vacina de mRNA personalizada contra câncer já está aprovada?

Não. O INTerpath-001 atingiu seus desfechos, mas as empresas informaram que ainda apresentarão os dados completos em congresso médico e discutirão com reguladores as submissões de registro. Trata-se de terapia investigacional.

É a mesma tecnologia da vacina de covid-19?

A plataforma é a mesma — RNA mensageiro entregue por nanopartículas lipídicas. A aplicação é diferente: a vacina de covid-19 é profilática e padronizada, enquanto a terapia de neoantígeno é terapêutica e fabricada individualmente a partir do tumor de cada paciente.

Quantos neoantígenos uma dose contém?

No caso do intismeran autogene, o mRNA sintético codifica até 34 neoantígenos, selecionados a partir do perfil mutacional do tumor daquele paciente.

Por que é necessário coletar também uma amostra de tecido normal?

Para distinguir mutações somáticas, exclusivas do tumor, de variantes germinativas presentes em todas as células do indivíduo. Sem essa comparação pareada, não é possível identificar com segurança quais alterações são alvos legítimos.

O Brasil produz esse tipo de terapia?

Não. Os investimentos em curso no Butantan e na Fiocruz são voltados a vacinas de mRNA profiláticas produzidas em lote. O país participa, porém, como sítio clínico em vários estudos do programa INTerpath, executando a coleta e o processamento inicial das amostras.

O que acontece se a amostra do paciente for perdida ou degradada?

Como o insumo de partida é o próprio tecido tumoral, obtido em procedimento não repetível, a perda ou degradação compromete a possibilidade de fabricar a terapia para aquele paciente. Não existe lote substituto.

Quantos ciclos de congelamento e descongelamento uma amostra suporta?

Depende do analito e do uso pretendido. A revisão sistemática publicada no PeerJ descreve degradação severa acima de dez ciclos, com alterações significativas em enzimas já a partir de cinco ciclos ou menos. A ISO 20387 trata da necessidade de gerenciar essa contagem.

Automação de armazenamento é exigência regulatória?

A automação em si não é exigida por norma. O que é exigido, pela Resolução CNS nº 441/2011, é rastreabilidade, recuperação dos dados dos sujeitos de pesquisa e prestação periódica de contas ao Sistema CEP/CONEP. A automação é um meio de atender a esses requisitos com consistência.

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