Capa do Artigo Parâmetros mais críticos no desenvolvimento de LNPs de mRNA

Parâmetros mais críticos no desenvolvimento de LNPs de mRNA

Por: Dafratec | Em 30/10/2025 | Artigo
Compartilhar:

Imagine o cenário: pesquisadores e empresas do mundo todo buscam entender quais fatores realmente determinam o sucesso de uma formulação de LNPs para entrega de mRNA. São dezenas de variáveis, mas apenas algumas — os chamados parâmetros críticos de qualidade (CQAs) — definem se o produto será estável, reprodutível e clinicamente eficaz.

A seguir, apresentamos os parâmetros que a literatura científica e os órgãos regulatórios consideram fundamentais. Explore cada grupo e reflita: qual deles representa o maior desafio para o seu laboratório, equipe ou projeto de desenvolvimento?


1) Atributos físico-químicos do sistema

Tamanho médio e distribuição (PDI) — influenciam circulação, extravasamento e captação celular; revisões e estudos de qualidade apontam metas típicas de ~60–120 nm e PDI < 0,2 para formulações reprodutíveis.

ScienceDirect – Analytical techniques for the characterization of lipid nanoparticles

Concentração de partículas (partículas/mL) — necessária para dosimetria real por partícula e comparabilidade de lotes; métodos de partícula única são recomendados.

PMC – Multiparametric functional characterization of individual LNPs

Potencial zeta / carga de superfície (pH fisiológico) — associado à estabilidade coloidal, agregação e interação com membranas; visa-se próximo de neutro (pH 7,4) para reduzir toxicidade sem perder eficiência de entrega.

Nature – A careful look at lipid nanoparticle characterization

Eficiência de encapsulamento (EE%) e distribuição de payloadEE > 90% é frequentemente reportada e desejável; a distribuição heterogênea entre partículas impacta potência e segurança.

MDPI – Exploring the Challenges of Lipid Nanoparticle Development

Morfologia / estrutura interna e subpopulações — heterogeneidades (como partículas vazias vs. carregadas) correlacionam com eficácia; abordagens multiparamétricas em partícula única têm ganhado espaço.

PMC – Multiparametric functional characterization of individual LNPs

Contexto: esses parâmetros definem a assinatura física das LNPs. Em ambiente regulado, determinam a comparabilidade entre lotes e o controle de qualidade. No laboratório, influenciam diretamente a estabilidade e a performance biológica; já no mercado, são os indicadores usados para justificar consistência e segurança em dossiês de submissão.


2) Química de formulação (composição e razões molares)

pKa aparente do lipídio ionizável — deve alinhar-se ao microambiente endossomal para maximizar escape com mínima toxicidade; é um driver central de desempenho.

Nature – Artificial intelligence-driven rational design of ionizable lipids

Razões molares (ionizável : colesterol : fosfolipídeo : PEG-lipid) e teor de PEG-lipid (mol%) — controlam tamanho, estabilidade, formação de “corona” e cinética de liberação; todos os LNPs aprovados compartilham arquitetura 4-componentes.

PMC – Composition of lipid nanoparticles for targeted delivery

Tipo de fosfolipídeo (DSPC vs. DOPE) e teor de colesterol — modulam rigidez/fluidez da membrana e fusogenicidade, afetando transfeção e estabilidade.

ACS Nano – Lipid Nanoparticles From Liposomes to mRNA Vaccine Delivery Systems

N/P (nitrogênios do lipídio : fosfatos do mRNA) — regula encapsulamento, carga e toxicidade; a otimização é específica de sequência e processo.

ACS Nano – Lipid Nanoparticles From Liposomes to mRNA Vaccine Delivery Systems

Contexto: esses parâmetros representam o “DNA químico” das LNPs. No desenvolvimento industrial, são ajustados milimetricamente para equilibrar eficiência de entrega e segurança. Em pesquisa, são o ponto de partida para inovação de novas gerações de lipídios ionizáveis e formulações personalizadas.


3) Qualidade do mRNA (DS) e impurezas de processo

Integridade do mRNA (tamanho completo), 5′-cap, 3′-poli(A) e teor de dsRNA — impactam tradução, imunogenicidade inata e potência; são CQAs regulatórios explícitos.

WHO – Evaluation of the quality, safety and efficacy of messenger RNA vaccines

Impurezas e resíduos — lipídios degradados, solventes residuais, tampões/sais e endotoxina devem ser controlados por especificações e métodos validados (HPLC-CAD para componentes lipídicos aparece em revisões de QC).

Taylor & Francis – Research progress on the quality control of mRNA vaccines

Contexto: este bloco é o coração da qualidade farmacêutica. Reguladores exigem controle absoluto do material genético e de suas impurezas, pois qualquer degradação altera potência e segurança. Nos laboratórios, isso se traduz em rotinas robustas de purificação e testes bioanalíticos.


4) Estabilidade e robustez de processo

Estabilidade físico-química (temperatura, freeze–thaw, agitação, liofilização) — monitorar tamanho, PDI, zeta, EE% e agregação ao longo do tempo; a orientação regulatória exige desenho de estudos e controles sob GMP.

WHO – Evaluation of the quality, safety and efficacy of messenger RNA vaccines

Consistência lote-a-lote e escalonamento — plataformas contínuas (microfluídica + TFF) relatam CQAs estáveis (p.ex., EE ≈ 95% e tamanho ~100 nm) quando o processo é bem controlado.

ScienceDirect – Advancing continuous encapsulation and purification of LNPs

Contexto: a estabilidade é o elo entre P&D e mercado. Um produto pode ser promissor no laboratório, mas sem robustez de processo não chega à clínica. Esses parâmetros determinam prazo de validade, transporte e custo final — temas centrais na indústria biofarmacêutica.


5) Desempenho biológico

Potência (in vitro / in vivo) — leitura integrada das propriedades acima; necessária correlação com dose efetiva. Guias FDA e EMA enfatizam ensaios de potência robustos.

FDA – Considerations for the Quality, Safety and Efficacy of mRNA vaccines

Biodistribuição / clearance e imunogenicidade — composição (p.ex., PEG-lipid) e tamanho alteram tropismo, ativação inata e reações como CARPA; trade-offs entre eficácia e segurança estão bem documentados.

ACS Nano – Lipid Nanoparticles From Liposomes to mRNA Vaccine Delivery Systems

Contexto: esse grupo traduz a real performance clínica das LNPs. No ambiente regulado, define a dose segura e eficaz; na pesquisa, guia o design racional de formulações. No mercado, é a métrica que diferencia uma tecnologia inovadora de um produto inviável.


Como a comunidade mede (e por que “partícula única” importa)

Plataformas de partícula única complementam a caracterização clássica ao quantificar tamanho, concentração, potencial zeta e subpopulações (por fluorescência para LNPs carregadas). Essa abordagem captura heterogeneidades que determinam estabilidade, potência e segurança.

Nature – A careful look at lipid nanoparticle characterization

Contexto: no mercado de instrumentação analítica, essa é a fronteira tecnológica. Equipamentos como o ZetaView® permitem análises multiparamétricas com sensibilidade inédita, conectando o laboratório à prática industrial com dados de altíssima reprodutibilidade.


O que os reguladores esperam (tradução para CMC)

Guias da WHO e apresentações da FDA listam explicitamente os CQAs do DS (mRNA) e do DP (LNP-mRNA), exigindo estratégias de controle alinhadas ao risco (potência, identidade, pureza, teor, tamanho / PDI, EE%, estabilidade). A EMA publicou em 2025 um rascunho de diretriz específico para vacinas de mRNA.

WHO – Evaluation of the quality, safety and efficacy of messenger RNA vaccines

Contexto: esse alinhamento regulatório define o que será exigido nos próximos anos para submissões de produtos de mRNA. Laboratórios que internalizam essas práticas desde o desenvolvimento inicial têm vantagem competitiva e menor tempo de aprovação.


Resumo acionável (para debate público)

  1. Tamanho, PDI e concentração
  2. Potencial zeta (pH 7,4)
  3. Eficiência de encapsulamento e distribuição de payload por partícula
  4. pKa do lipídio ionizável, razões molares e teor de PEG-lipid
  5. Integridade/cap do mRNA e impurezas (incl. dsRNA, endotoxina, solventes)
  6. Estabilidade (tempo, temperatura, freeze–thaw) e consistência de processo
  7. Potência e biodistribuição (correlação fisicoquímica → biológica)

ScienceDirect – Analytical techniques for the characterization of lipid nanoparticles


Pergunta para a comunidade científica

O desenvolvimento de LNPs para entrega de mRNA envolve equilibrar múltiplos parâmetros críticos — cada um com impacto direto na estabilidade, eficácia e segurança das formulações. Entre os fatores discutidos — potencial zeta, eficiência de encapsulamento, estabilidade físico-química, composição lipídica e integridade do mRNA —, qual você considera o maior desafio hoje em seu campo de pesquisa ou no controle de qualidade industrial?

Compartilhe sua experiência: quais desses parâmetros têm sido mais sensíveis nos seus estudos ou processos, e quais abordagens têm funcionado melhor para mantê-los sob controle?



Outros Artigos