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Capa do Artigo Cultivo fed-batch de E. coli em microplaca: o protocolo que reproduz condições de produção

Cultivo fed-batch de E. coli em microplaca: o protocolo que reproduz condições de produção

Estudo austríaco criou um protocolo de cultivo fed-batch de E. coli em microplaca no BioLector que prevê o comportamento das cepas em escala industrial, com ranking idêntico ao biorreator de 30 L.

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Por: Dafratec | Em 03/08/2026 | Artigo
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Como um estudo provou que a triagem em microplaca prevê o comportamento de E. coli em escala industrial

Um grupo de pesquisadores austríacos desenvolveu um protocolo de cultivo fed-batch de E. coli em microplaca capaz de reproduzir, em escala miniaturizada, as condições encontradas em um biorreator de produção. 

Cultivo fed-batch de E. coli em microplaca: o protocolo que reproduz condições de produção

O resultado permite triar clones de Escherichia coli logo no início do desenvolvimento de um bioprocesso, mas sob condições próximas às reais de fabricação, algo que a triagem convencional não entrega.

O estudo foi publicado na revista SpringerPlus por pesquisadores do Austrian Centre of Industrial Biotechnology (ACIB) e da Universidade de Recursos Naturais e Ciências da Vida de Viena (BOKU). 

A relevância do tema não é pequena: a E. coli é a plataforma por trás de grande parte das proteínas terapêuticas aprovadas no mundo, o que torna qualquer ganho de eficiência na triagem de cepas um fator direto de redução de custo e tempo no desenvolvimento farmacêutico e industrial.

Neste artigo você vai entender:

  • Por que a triagem tradicional em batch pode enganar o pesquisador;
  • Como o protocolo reproduz o fed-batch dentro de uma microplaca;
  • Quais equipamentos tornaram o experimento possível e qual o papel de cada um;
  • Os resultados que provam que a microescala prevê a escala industrial.

O problema: por que a triagem em batch pode enganar

Na indústria, proteínas recombinantes em E. coli são produzidas em modo fed-batch: o substrato é fornecido de forma controlada e limitada, o que mantém a taxa de crescimento sob controle, permite atingir altas densidades celulares e evita a formação de subprodutos indesejados.

O problema está no descompasso entre essa realidade de produção e a forma como os clones são triados no início. A triagem inicial costuma ocorrer em modo batch, com todo o substrato disponível desde o começo. Nessa condição, o crescimento acelerado consome oxigênio rapidamente e favorece o acúmulo de metabólitos que inibem o próprio crescimento, como o acetato.

A consequência prática é séria: um clone que se comporta muito bem no batch pode ter desempenho ruim quando levado à produção em fed-batch. A triagem seleciona o candidato errado.

Por isso, os autores partiram de uma premissa clara: as condições de triagem precisam se aproximar das condições de produção. O desafio era conseguir isso em um formato de alto rendimento, como a microplaca, sem a complexidade de um biorreator completo.

A solução: reproduzir o fed-batch dentro de uma microplaca

Alimentar substrato de forma controlada é simples em um biorreator, que dispõe de bombas e sistemas de controle. Em uma microplaca, com poços de menos de um mililitro, bombear alimentação é inviável. A saída encontrada foi elegante: em vez de alimentar de fora, deixar que o próprio meio libere o substrato aos poucos.

O protocolo usa um meio de liberação enzimática de glicose. Nele, uma enzima (glucoamilase) cliva gradualmente moléculas de glicose de um polímero solúvel. A velocidade dessa liberação é determinada pela atividade da enzima, que, por sua vez, depende de temperatura e pH. Na prática, a liberação enzimática substitui a bomba de alimentação do biorreator, impondo o mesmo tipo de crescimento limitado por carbono que caracteriza o fed-batch.

Para chegar à condição ideal, os pesquisadores variaram três parâmetros do cultivo, a diluição do meio (50%, 67%, 80% e 100%), o volume de cultivo e a temperatura, sempre respeitando critérios definidos previamente para imitar a produção:

Critério Faixa-alvo
Oxigênio dissolvido (DO) acima de 30%
pH 7 ± 1
Crescimento na fase de alimentação limitado por carbono

Os equipamentos e o papel de cada um

Dois sistemas foram centrais no estudo, com funções bem distintas. Um viabilizou a triagem em microescala; o outro serviu como referência para provar que os resultados se sustentam em escala maior.

BioLector: o cultivo e o monitoramento em microescala

O Microbiorreator BioLector irá otimizar o seu processo. Controle preciso de pH, biomassa e OD com tecnologia microfluídica patenteada e sensores ópticos.

O BioLector foi o sistema onde todo o protocolo foi executado. Trata-se de um microbiorreator que cultiva as células em microplacas de 48 poços e, ao mesmo tempo, acompanha as variáveis-chave do processo de forma online e não invasiva, ou seja, sem precisar parar a agitação nem retirar amostras dos poços.

A cada 15 minutos, o equipamento registrava simultaneamente:

  • Biomassa, medida por luz retroespalhada;
  • Oxigênio dissolvido (DO), por sensores de fluorescência;
  • pH, também por fluorescência;
  • Expressão da proteína recombinante (GFP), acompanhada por sinal fluorescente.

Essa capacidade de leitura contínua e paralela é o que torna a plataforma tão poderosa para triagem: dezenas de condições podem ser avaliadas ao mesmo tempo, com o histórico completo de cada cultivo registrado do início ao fim.

O microbiorreator reproduz, em microescala e com monitoramento online, o comportamento de um biorreator de bancada, permitindo triar diversas condições de cultivo de E. coli em paralelo, sem sacrificar a transferibilidade para a escala industrial.

Biorreator de 30 L: o padrão de comparação

Características Principais do Biorreator Série LP/P

Para provar que a microescala tinha valor real, os pesquisadores precisavam de uma referência de escala maior. Esse papel coube a um biorreator de 30 litros, totalmente controlado por computador, no qual foram conduzidos cultivos de alta densidade celular.

Aqui, o equipamento não estava sendo testado, ele era o padrão-ouro contra o qual os resultados da microplaca seriam confrontados. 

Se o comportamento das cepas na microescala coincidisse com o comportamento no biorreator de 30 L, estaria demonstrado que a triagem miniaturizada é confiável.

Os resultados

A combinação vencedora foi o meio diluído a 67% em volume reduzido de cultivo. Nessa condição, a cultura atingiu cerca de 11 gramas de biomassa por litro, com fase inicial encurtada, sem limitação de oxigênio e sem oscilações severas de pH, cumprindo todos os critérios estabelecidos para imitar a produção.

Gráficos de biomassa, taxa de crescimento, oxigênio dissolvido e pH ao longo de 40 horas de cultivo de E. coli em microplaca
Cultivo de E. coli HMS174 no BioLector: a transição da fase batch para fed-batch e o comportamento de biomassa, taxa de crescimento (µ), oxigênio dissolvido (DO) e pH ao longo de 40 horas. Os painéis inferiores, com meio FIT 67%, mostram a fase inicial encurtada e o oxigênio dissolvido mantido em nível seguro. Fonte: Toeroek et al., SpringerPlus, 2015 (CC BY 4.0).

O método também se mostrou altamente reprodutível. A variação entre poços de uma mesma placa ficou em torno de 4,5%, e a variação entre diferentes dias abaixo de 5% para a cepa selvagem. Reprodutibilidade nesse nível é um requisito essencial para qualquer plataforma de triagem que se pretenda confiável.

Curvas de biomassa de E. coli quase sobrepostas em cultivos repetidos em três dias diferentes, demonstrando baixa variação
Reprodutibilidade do protocolo: crescimento de biomassa da cepa selvagem HMS174 (a) e da cepa recombinante com GFP (b), cada uma cultivada em sêxtuplas em três dias diferentes. A proximidade das curvas reflete o baixo coeficiente de variação entre poços e entre dias. Fonte: Toeroek et al., SpringerPlus, 2015 (CC BY 4.0).

Na produção de proteína recombinante, os números da microplaca acompanharam de perto os do biorreator plenamente controlado, tanto no rendimento de GFP quanto no impacto da indução sobre o crescimento:

Parâmetro Microplaca (BioLector) Biorreator controlado
Rendimento de GFP ~90 mg/g de biomassa 129 mg/g de biomassa
Queda de biomassa por indução 36% 30%

A proximidade entre as duas colunas é o que importa: a mesma ordem de grandeza indica que o comportamento observado em microescala se sustenta quando o processo é levado à escala maior.

A prova final: a microplaca previu a escala industrial

O resultado mais importante do estudo veio da comparação direta entre as duas escalas. Três cepas de produção com perfis de crescimento e acidificação diferentes foram cultivadas tanto no microbiorreator quanto no biorreator de 30 L.

O ranking de crescimento e de rendimento das cepas foi idêntico na microplaca e no biorreator de 30 litros. A ordem de desempenho observada em microescala se manteve quando o processo foi levado à escala industrial.

Curvas de biomassa das cepas RV308, BL21 e HMS174 mantendo a mesma ordem de desempenho na microplaca e no biorreator de alta densidade
A prova da transferibilidade: crescimento das cepas RV308, BL21 e HMS174 no microbiorreator (a) e no biorreator de alta densidade (b). A ordem de desempenho entre as cepas se mantém idêntica nas duas escalas, o resultado que valida a triagem em microescala. Fonte: Toeroek et al., SpringerPlus, 2015 (CC BY 4.0).

Esse é o achado que sustenta toda a proposta. Ele demonstra que decidir qual cepa levar adiante com base nos dados da microplaca leva à mesma decisão que seria tomada com base no biorreator de bancada, mas de forma muito mais rápida, barata e paralela. É a transferibilidade entre escalas, comprovada com dados.

O que isso significa na prática

Para quem desenvolve bioprocessos, o valor está no início da jornada. A fase de triagem de clones e de otimização de condições é onde se define o sucesso ou o fracasso do processo em produção, e é também onde o gargalo de tempo e de recursos costuma ser maior.

Com um protocolo validado em microplaca, é possível avaliar muitas condições em paralelo em uma única corrida, em vez de ocupar biorreatores caros em uma sequência de experimentos individuais. 

uma placa de 48 poços comporta dezenas de cultivos simultâneos numa única corrida

Na prática, uma placa de 48 poços comporta dezenas de cultivos simultâneos numa única corrida. Obter o mesmo número de condições em um biorreator de bancada exigiria rodar os experimentos em sequência, um após o outro. O estudo não mediu essa diferença de tempo, mas o ganho de paralelismo é inerente ao formato.

O ponto central, comprovado pelo estudo, é que essa economia não vem ao custo de confiabilidade: os resultados da microescala se transferem para a escala maior. E isso só é possível porque o microbiorreator entrega, simultaneamente, cultivo controlado e monitoramento online das variáveis que realmente importam.


Perguntas frequentes

O que é cultivo fed-batch de E. coli?

É um modo de cultivo em que o substrato (fonte de carbono, geralmente glicose) é fornecido de forma controlada e gradual, em vez de estar todo disponível desde o início. Isso mantém a taxa de crescimento sob controle, permite altas densidades celulares e reduz a formação de subprodutos inibitórios. É o modo padrão na produção industrial de proteínas recombinantes.

Por que não triar clones diretamente em modo batch?

Porque o batch cria condições diferentes das de produção: crescimento acelerado, consumo rápido de oxigênio e acúmulo de metabólitos como o acetato. Um clone que vai bem nessas condições pode ter desempenho ruim na produção real em fed-batch, levando à seleção de candidatos inadequados.

Como é possível fazer fed-batch em uma microplaca sem bombas?

Usando um meio de liberação enzimática de glicose. Uma enzima libera açúcar gradualmente a partir de um polímero, controlando a taxa de crescimento de forma análoga à alimentação por bomba de um biorreator — sem necessidade de sistema de alimentação externo.

Qual o papel do BioLector no estudo?

O BioLector foi o microbiorreator onde o protocolo rodou. Ele cultivou as células em microplacas e monitorou biomassa, oxigênio dissolvido, pH e expressão de proteína recombinante de forma online e não invasiva, a cada 15 minutos, permitindo acompanhar vários cultivos em paralelo.

Para que serviu o biorreator de 30 litros?

Serviu como padrão de comparação. Os cultivos de alta densidade celular nele conduzidos foram usados para verificar se o comportamento das cepas na microplaca se reproduzia em escala maior — confirmando a transferibilidade dos resultados.

Os resultados da microplaca realmente se transferem para escala industrial?

Sim. O estudo mostrou que o ranking de crescimento e rendimento de três cepas de produção foi idêntico na microplaca e no biorreator de 30 L, o que valida o uso da microescala para decidir quais cepas avançar.

Por que E. coli é tão usada na produção de proteínas?

Porque é uma bactéria de cultivo fácil, crescimento rápido e genética bem conhecida, o que a torna um organismo-modelo consolidado em biotecnologia. Boa parte das proteínas terapêuticas aprovadas é produzida usando E. coli como hospedeira.

Estudo original: https://link.springer.com/article/10.1186/s40064-015-1313-z

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