Como IGC e DVS ajudam a compreender a liberação de medicamentos por excipientes farmacêuticos?
A cromatografia gasosa inversa (IGC) e a sorção dinâmica de vapor (DVS) ajudam a compreender o comportamento dos excipientes farmacêuticos ao relacionar suas propriedades superficiais à interação com a água.
A IGC investiga energia superficial, polaridade e interações ácido-base; a DVS mede a absorção e a perda de umidade. Juntas, essas informações ajudam a explicar o intumescimento de polímeros e os mecanismos de liberação de medicamentos.
Essa relação foi investigada por pesquisadores da Universidade de Ljubljana, na Eslovênia, em um estudo publicado em 2006 no European Journal of Pharmaceutical Sciences. O trabalho analisou três derivados de celulose e a liberação de dois fármacos hidrossolúveis.
Neste artigo, você verá:
- Por que os excipientes podem controlar a liberação de medicamentos.
- Como polaridade, hidratação e intumescimento estão relacionados.
- O que IGC e DVS medem e como foram utilizadas na pesquisa.
- Quais resultados foram encontrados para HEC, HPMC e HPC.
- Como aplicar essas informações à caracterização de formulações farmacêuticas.
O estudo mostrou que propriedades superficiais dos polímeros estão associadas à absorção de água e aos mecanismos de liberação dos medicamentos nas condições investigadas.
1. Por que os excipientes farmacêuticos influenciam a liberação de medicamentos?
Os excipientes farmacêuticos desempenham funções como conferir estrutura ao comprimido, facilitar a fabricação e contribuir para a estabilidade da formulação. Alguns deles também participam do controle da liberação do princípio ativo.
Nos comprimidos matriciais hidrofílicos, o medicamento fica distribuído em uma estrutura polimérica. Quando o comprimido entra em contato com a água, o polímero se hidrata, pode aumentar de volume e formar uma camada de gel.
Essa camada influencia a passagem do fármaco para o meio externo. Por isso, a escolha do polímero é uma variável importante no desenvolvimento de formulações farmacêuticas.
Como o medicamento é liberado da matriz?
- Difusão: moléculas do fármaco atravessam a matriz hidratada.
- Relaxação polimérica: as cadeias do polímero ganham mobilidade e se reorganizam durante a hidratação.
- Erosão: a perda progressiva de material da matriz também pode contribuir para a liberação, dependendo da formulação.
Esses processos podem atuar simultaneamente, com contribuições diferentes conforme o polímero, o medicamento e as condições de dissolução.
A interação entre polímero e água modifica a estrutura da matriz e pode alterar a velocidade de liberação do princípio ativo.
2. Como as propriedades superficiais influenciam a absorção de água?
Energia superficial, polaridade e características ácido-base ajudam a descrever como um sólido interage com outras moléculas. Nos polímeros hidrofílicos, essas propriedades estão relacionadas à afinidade com a água.
Quando a água penetra em uma matriz polimérica, pode ocorrer uma sequência de fenômenos:
- Hidratação: entrada de água e interação com os grupos químicos do polímero.
- Intumescimento: expansão da matriz pela absorção de líquido. No estudo, foi quantificado pelo ganho de massa após hidratação.
- Relaxação: reorganização das cadeias poliméricas.
- Transporte do fármaco: difusão das moléculas pela estrutura hidratada.
Entretanto, essas etapas não ocorrem com a mesma intensidade em todos os materiais. Assim, a caracterização das superfícies pode ajudar a explicar diferenças entre excipientes.
Polímeros quimicamente distintos podem apresentar diferentes níveis de sorção de água, intumescimento e liberação de medicamentos.
3. Como a cromatografia gasosa inversa (IGC) e a sorção dinâmica de vapor (DVS) caracterizam excipientes?
Cromatografia gasosa inversa: propriedades da superfície
A cromatografia gasosa inversa (IGC) utiliza moléculas de prova com propriedades conhecidas para investigar suas interações com a superfície de um material sólido.
A partir dos tempos de retenção, é possível determinar parâmetros de energia superficial dispersiva, interações específicas de adsorção e comportamento ácido-base. A técnica também é abordada na página sobre caracterização de sólidos particulados por IGC.
Sorção dinâmica de vapor: resposta à umidade
A sorção dinâmica de vapor (DVS) acompanha a variação de massa de uma amostra quando ela é exposta a condições controladas de umidade relativa.
O método permite construir isotermas de sorção e dessorção e avaliar o comportamento higroscópico dos materiais. Para aprofundar o tema, consulte o artigo sobre sorção de umidade de materiais farmacêuticos por DVS.
Enquanto a IGC investiga propriedades e interações da superfície, a DVS observa diretamente a resposta gravimétrica do material ao vapor de água.
IGC e DVS são técnicas complementares: uma caracteriza interações superficiais; a outra mede o comportamento do material diante da umidade.
4. Como os pesquisadores aplicaram IGC e DVS no estudo?
O artigo Analysis of surface properties of cellulose ethers and drug release from their matrix tablets, de Baumgartner e colaboradores (2006), investigou três derivados de celulose e sua influência sobre a liberação de pentoxifilina e cloridrato de vancomicina.
Quais polímeros foram analisados?
| Polímero | Denominação |
|---|---|
| HEC | Hidroxietilcelulose |
| HPMC | Hidroxipropilmetilcelulose |
| HPC | Hidroxipropilcelulose |
Os comprimidos utilizados nos ensaios de liberação foram preparados com 75% de polímero e 25% de medicamento. Para os ensaios de intumescimento, foram utilizados comprimidos contendo apenas polímero.
A seleção de dois fármacos hidrossolúveis com tamanhos moleculares diferentes permitiu comparar seus perfis de liberação.
Quais equipamentos foram utilizados na pesquisa?
Para a IGC, os autores utilizaram um cromatógrafo gasoso Hewlett-Packard HP 5890A Series II, com detector de ionização de chama. As análises foram conduzidas a 30, 40, 50 e 60 °C, com moléculas de prova polares e apolares.
Para a sorção de umidade, foi utilizado um equipamento DVS da Surface Measurement Systems. Os pesquisadores também realizaram ensaios de intumescimento e dissolução dos comprimidos.
Nota sobre os equipamentos: o estudo não utilizou o iGC-SEA e não identifica o DVS Adventure como o modelo empregado. Ambos são apresentados adiante como soluções atuais para aplicações relacionadas.
O desenho experimental conectou medições em polímeros secos, sorção de umidade, intumescimento e liberação dos medicamentos.
5. O que os resultados de IGC e DVS revelaram sobre HEC, HPMC e HPC?
As diferenças na componente dispersiva da energia superficial foram relativamente pequenas. Entretanto, as propriedades polares variaram de maneira mais expressiva entre os polímeros.
Qual foi a ordem de polaridade?
As análises de IGC indicaram a seguinte sequência:
HEC > HPMC > HPC
Essa ordem também foi observada na sorção de água: o HEC apresentou maior absorção de umidade, o HPMC teve comportamento intermediário e o HPC apresentou menor sorção.

Como os polímeros se comportaram no intumescimento?
Os ensaios em meio aquoso seguiram a mesma tendência: o HEC apresentou maior grau de intumescimento, seguido de HPMC e HPC.

Os resultados foram consistentes com a relação entre polaridade superficial e interação com a água observada na pesquisa.
Nas condições do estudo, maior polaridade superficial esteve associada a maior sorção de água e maior intumescimento.
6. Como as diferenças entre os polímeros afetaram a liberação dos medicamentos?
Os perfis de dissolução indicaram liberação mais rápida nas matrizes de HEC, seguida de HPMC e HPC.
Após 24 horas, a pentoxifilina havia sido liberada quase completamente das matrizes de HEC e HPMC. Na matriz de HPC, a liberação foi de aproximadamente 90%.
Para a vancomicina, a diferença entre os polímeros foi mais pronunciada:
| Polímero | Vancomicina liberada após 24 horas |
|---|---|
| HEC | Aproximadamente 100% |
| HPMC | Aproximadamente 87% |
| HPC | Aproximadamente 78% |
A vancomicina foi liberada mais lentamente do que a pentoxifilina, comportamento associado ao seu maior tamanho molecular.

Difusão ou relaxação: qual mecanismo predominou?
O modelo de Peppas–Sahlin foi empregado para distinguir contribuições da difusão e da relaxação das cadeias poliméricas.
HPC: maior predominância da difusão.
HEC: contribuição mais expressiva da relaxação polimérica.
HPMC: predominância da difusão, com maior contribuição da relaxação que no HPC.

As propriedades dos polímeros estiveram relacionadas à velocidade de liberação e à importância relativa dos mecanismos de difusão e relaxação.
7. IGC e DVS permitem prever o comportamento dos excipientes farmacêuticos?
O estudo identificou correlações entre parâmetros de superfície, sorção de água e mecanismos de liberação. Os pesquisadores correlacionaram a soma dos parâmetros ácido-base (Ka + Kd), determinados por IGC, com a constante cinética de relaxação polimérica (k₂).
O HEC apresentou maior polaridade e maior participação da relaxação, enquanto os demais polímeros tiveram contribuição menor desse mecanismo.

Entretanto, a interpretação exige cuidado. A IGC caracterizou os polímeros secos, enquanto a liberação ocorre em matrizes hidratadas, cujas propriedades podem se modificar.
Além disso, foram avaliados somente três derivados de celulose e dois medicamentos hidrossolúveis. Portanto, a pesquisa não estabeleceu uma previsão universal aplicável a qualquer formulação.
IGC e DVS ajudam a antecipar tendências e compreender mecanismos, mas não substituem ensaios de dissolução e validação da formulação.
8. Quais equipamentos atuais permitem investigar essas propriedades?
As aplicações descritas podem ser investigadas com equipamentos especializados de caracterização de superfícies e sorção de vapor. A Surface Measurement Systems desenvolve soluções nessas duas áreas, disponíveis no portfólio da Dafratec.
iGC-SEA: caracterização de energia superficial por IGC
O iGC-SEA da Surface Measurement Systems é um analisador dedicado à cromatografia gasosa inversa (IGC), utilizado para investigar energia superficial dispersiva e polar, interações ácido-base e propriedades de adsorção de materiais sólidos, incluindo excipientes farmacêuticos.
DVS Adventure: análise de sorção de vapor de água
O DVS Adventure da Surface Measurement Systems é um analisador de sorção dinâmica de vapor que mede alterações de massa sob condições controladas de umidade relativa. Permite investigar sorção, dessorção e comportamento higroscópico de materiais, incluindo polímeros utilizados em formulações farmacêuticas.
Saiba mais sobre o DVS Adventure
Na pesquisa farmacêutica, essas técnicas podem contribuir para comparar matérias-primas, investigar higroscopicidade e compreender interações entre excipientes e umidade. Para aprofundar aplicações relacionadas, consulte também o artigo sobre caracterização de materiais farmacêuticos por sorção de vapor.
O iGC-SEA e o DVS Adventure permitem investigar, respectivamente, propriedades superficiais e interação com a umidade — duas dimensões importantes para caracterizar excipientes.
9. Conclusão: por que caracterizar excipientes ajuda a compreender a liberação controlada?
O estudo de Baumgartner e colaboradores demonstrou que diferenças nas propriedades superficiais de derivados de celulose estavam relacionadas à sorção de água, ao intumescimento e aos mecanismos de liberação de medicamentos.
O HEC apresentou maior polaridade e maior sorção de água, além de liberação mais rápida dos fármacos investigados. Nesse polímero, a relaxação das cadeias teve contribuição mais expressiva para o processo.
Ao combinar IGC, DVS e ensaios de dissolução, os pesquisadores obtiveram uma interpretação mais completa do comportamento das matrizes hidrofílicas.
Caracterizar como o excipiente interage com a água ajuda a explicar seu papel na liberação do medicamento e a orientar novas investigações de formulação.
Perguntas frequentes sobre excipientes farmacêuticos, IGC e DVS
O que são excipientes farmacêuticos?
São componentes de uma formulação que desempenham funções auxiliares ao princípio ativo, como conferir estrutura, facilitar a fabricação e contribuir para a estabilidade. Alguns também influenciam a liberação do medicamento.
Como os excipientes influenciam a liberação de medicamentos?
Em comprimidos matriciais, polímeros podem absorver água, formar uma camada hidratada e modificar os caminhos de difusão do fármaco. A relaxação e a erosão da matriz também podem contribuir para a liberação.
Para que serve a cromatografia gasosa inversa (IGC)?
A IGC caracteriza interações da superfície de materiais sólidos, incluindo energia superficial, interações específicas de adsorção e características ácido-base.
O que mede a sorção dinâmica de vapor (DVS)?
A DVS mede alterações de massa de uma amostra exposta a diferentes condições de umidade relativa, permitindo investigar a sorção e a dessorção de vapor.
Qual é a diferença entre IGC e DVS?
A IGC utiliza moléculas de prova para investigar propriedades superficiais; a DVS acompanha a resposta gravimétrica do material ao vapor. São técnicas complementares.
O que é intumescimento de polímeros?
É o aumento de volume de uma matriz polimérica associado à absorção de líquido. Em comprimidos hidrofílicos, influencia a estrutura da camada hidratada e a liberação do medicamento.
IGC e DVS conseguem prever a velocidade de liberação de um medicamento?
Podem ajudar a identificar tendências e compreender mecanismos, mas não determinam sozinhas o perfil de liberação. São necessários ensaios de dissolução e avaliação da formulação.
Qual polímero absorveu mais água no estudo?
A hidroxietilcelulose (HEC) apresentou maior sorção de água e intumescimento, seguida por HPMC e HPC.
O iGC-SEA e o DVS Adventure foram utilizados na pesquisa de 2006?
Não há evidência de que esses modelos tenham sido usados. O estudo identificou um cromatógrafo Hewlett-Packard HP 5890A Series II para IGC e um equipamento DVS da Surface Measurement Systems, sem confirmar o modelo Adventure.
Referência científica
Baumgartner, S.; Planinšek, O.; Srčič, S.; Kristl, J. Analysis of surface properties of cellulose ethers and drug release from their matrix tablets. European Journal of Pharmaceutical Sciences, v. 27, p. 375–383, 2006.